Gramática da Língua Portuguesa

Texto para análise 5.1

Posted on: abril 12, 2011

1. Seu “Afredo”

Seu Afredo (ele sempre subtraía o l do nome, ao se apresentar com uma ligeira curvatura: “Afredo Paiva, um seu criado…”), tornou-se inesquecível à minha infância porque tratava-se muito mais de um lingüista que de um encerador. Como encerador, não ia muito lá das pernas. Lembro-me que sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debaixo de cada pé, para melhorar o lustro. Mas como lingüista, cultor de vernáculo e aplicador de sutilezas gramaticais, seu Afredo estava sozinho.
Tratava-se de um mulato quarentão, ultra-respeitador, mas em quem a preocupação lingüística perturbava às vezes a colocação pronominal. Um dia, numa fila de ônibus, minha mãe ficou ligeiramente ressabiada quando seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou-lhe à queima-roupa, na segunda do singular:
– Onde vais assim tão elegante?
Nós lhe dávamos uma bruta corda. Ele falava horas a fio, no ritmo do trabalho, fazendo os mais deliciosos pedantismos que já me foi dado ouvir. Uma vez, minha mãe, em meio à lide caseira, queixou-se do fatigante ramerrão do trabalho doméstico. Seu Afredo virou-se para ela e disse:
– Dona Lídia, o que a senhora precisa fazer é ir a um médico e tomar a sua quilometragem. Diz que é muito bão.
De outra feita, minha tia Graziela, recém-chegada de fora, cantarolava ao piano enquanto seu Afredo, acocorado perto dela, esfregava cera no soalho. Seu Afredo nunca tinha visto minha tia mais gorda. Pois bem: chegou-se a ela e perguntou-lhe:
– Cantas?
Minha tia, meio surpresa, respondeu com um riso amarelo:
– É, canto às vezes, de brincadeira…
Mas um tanto formalizada, foi queixar-se a minha mãe, que lhe explicou o temperamento do nosso encerador:
– Não, ele é assim mesmo. Isso não é falta de respeito, não. É excesso de… gramática.
Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, chegou-se a ela com ar disfarçado e falou:
– Olhe aqui, dona Lídia, não leve a mal, mas essa menina, sua irmã, se ela pensa que pode cantar no rádio com essa voz, ‘tá redondamente enganada. Nem programa de calouro!
E a seguir, ponderou:
– Agora, piano é diferente. Pianista ela é!
E acrescentou:
– Eximinista pianista!

a) Identifique o sufixo presente nas palavras aplicador e encerador e identifique o tipo de modificação que produz nas palavras primitivas.
b) Identifique o afixo que surge na palavra curvatura e explique que tipo de modificação ele introduz na palavra primitiva.
c)

2. Para mascar com chiclets

Quem subiu, no novelo do chiclets,
ao fim do fio ou do desgastamento,
sem poder não sacudir fora, antes,
a borracha infensa e imune ao tempo;
imune ao tempo ou o tempo em coisa,
em pessoa, encarnado nessa borracha,
de tal maneira, e conforme ao tempo,
o chiclets ora se contrai ora se dilata,
e consubstante ao tempo, se rompe,
interrompe, embora logo se reemende,
e fique a romper-se, a reemendar-se,
sem usura nem fim, do fio de sempre.
No entanto quem, e saberente que ele
não encarna o tempo em sua borracha.
quem já ficou num primeiro chiclets
sem reincidir nessa coisa (ou nada).

Quem pôde não reincidir no chiclets,
e saberente que não encarna o tempo:
ele faz sentir o tempo e faz o homem
sentir que ele homem o está fazendo.
Faz o homem, sentindo o tempo dentro,
sentir dentro do tempo, em tempo-firme.
e com que, mascando o tempo chiclets,
imagine-o bem dominado, e o exorcize.
(MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas ( 1940-1965) . 4. ed. Rio de

TRABALHANDO O TEXTO
1. Faça a depreensão dos morfemas presentes nas palavras desgastamento e encarnado e
explique os processos de formação que lhes deram origem.
2. Quais afixos podem ser percebidos na palavra consubstante? Qual o sentido que tem
essa palavra?
3. A aproximação das palavras rompe e interrompe revitaliza o valor do prefixo presente
nesta última? Explique.
4. Retire do texto as palavras em que surge o prefixo re- e comente as modificações que
ele produz nas palavras primitivas.
5. Qual o sentido da palavra saberente? Que tipo de afixo participa de sua formação?
6. É possível relacionar o prefixo presente na palavra exorcizar com o significado que
tem essa palavra? Comente.
7. Os prefixos são considerados um recurso muito eficiente para apresentar idéias e
conceitos de forma sintética. Isso acontece no texto? Comente.
8. Explique a relação que o texto estabelece entre o chiclets e o tempo. Que tipo de
dimensão adquire o ato de mascar chiclets?

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